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Olimpíadas: o que afasta as mulheres do pódio?

Mesmo com as dificuldades de patrocínio, atletas brasileiras fazem campanha histórica.

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Marta, jogadora da seleção brasileira de futebol feminino, com camisa da campanha Go Equal, por patrocínio justo para mulheres
Foto da meia atacante brasileira, Marta, em campanha para Go Equal, pelo pagamento justo à atletas femininas. Foto: Reprodução/ Instagram

“O peso de quem não trouxe a medalha, não são das jogadoras. É de quem não investe no futebol feminino brasileiro”

A fala é de Marta, camisa 10 da Seleção Brasileira, após a eliminação nos Jogos Olímpicos de Tóquio em uma disputa contra o time do Canadá. Mesmo que voltado ao futebol feminino, o depoimento representa a realidade de várias atletas que são constantemente cobradas por bons resultados. Mas a pergunta que fica é: por que esses resultados não chegam? 

O esporte é uma ferramenta de desenvolvimento social com grande potencial de mudar vidas, mas ainda é um ambiente machista. Quando praticado por mulheres normalmente não atrai tanta visibilidade e por isso recebe menos patrocínio. Mas como gerar visibilidade sem apoio e investimento? É um ciclo vicioso. 

É comum que grandes marcas esportivas firmem contratos com times e atletas masculinos, enquanto as competidoras femininas são constantemente invisibilizadas. Um exemplo é Marta, eleita seis vezes a melhor jogadora de futebol feminino do mundo, que luta por patrocínio justo. No momento, a atleta não tem patrocinadores pois sabe que o apoio oferecido a ela é menor do que o oferecido aos homens. Por isso, aderiu à campanha ‘Go Equal’, que luta por um pagamento mais justo para as atletas. 

O problema não é o fato de os esportes femininos não gerarem o mesmo público que os esportes masculinos, mas as atitudes das marcas em relação ao patrocínio. Quando a FIFA estabeleceu novas diretrizes em 2018, potencializando o valor comercial do futebol feminino, novas marcas se interessaram e a competição bateu recordes de 1 bilhão de visualizações. Outro problema enfrentado pelas mulheres no esporte é que de toda cobertura esportiva mundial, apenas 4% do espaço é dedicado às modalidades praticadas por elas. 

Qual é o lugar das mulheres?

Por muito tempo, as mulheres foram proibidas de participar de competições olímpicas, seja como atletas ou como torcedoras. Desde a primeira Olimpíada da era moderna, que aconteceu na Grécia 125 anos atrás, havia o estigma de que o corpo feminino não era adequado para a prática esportiva, mas sim para a maternidade. 

Pensamento que causa impactos até hoje, uma vez que só em 2012, em Londres, tivemos mulheres competindo em todas as modalidades e apenas esse ano, em Tóquio, alcançamos a sonhada equidade de gênero com 49% de participação feminina

Uma pesquisa feita em 2018 por uma empresa de tecnologia demonstrou que as modalidades femininas atraem apenas 1% do mercado de patrocinadores. Um exemplo disso é que a seleção feminina só teve seu primeiro patrocinador exclusivo em junho de 2021, quando a Neoenergia assinou o contrato até 2024, apoiando a seleção adulta e a de base.

Porém, o futebol atrai mais olhares que outros esportes, então se a realidade é essa para as jogadoras da seleção, nas modalidades que têm menos visibilidade a situação fica ainda mais delicada. Esse é o caso de Djenyfer Arnold, grande aposta do triatlo brasileiro para o próximo ciclo olímpico, que conta com o apoio de uma vaquinha, organizada por seu treinador, para conseguir comprar uma bicicleta adequada para a competição. Assim como Djenyfer, outros 41 atletas da atual delegação também fizeram vaquinha para arrecadar dinheiro para poder competir. 

Dos 309 atletas brasileiros que foram para os Jogos Olímpicos, 145 são mulheres e 80% deles recebem benefícios do governo federal através do programa Bolsa Atleta, que contempla 19 das 35 modalidades brasileiras que disputam medalhas no Japão. O programa foi criado em 2005 e é considerado um dos maiores do mundo.

Medalhistas, ainda que sem apoio

Mesmo que haja o apoio do Governo Federal, muitas vezes ele não é o suficiente, tendo em vista que competir em grandes competições internacionais não é barato. Além da profissionalização do atleta, há custos com transporte, material esportivo, comissão técnica e profissionais de saúde. Esportes menos populares têm mais dificuldade ainda para conseguir patrocinadores fixos, e são geralmente os que mais precisam de incentivos.

A medalhista mais jovem do Brasil, Rayssa Leal (Fadinha, para os íntimos) que ganhou medalha de prata no skate street, esporte recém adicionado aos jogos olímpicos também sofreu com a carência de apoio. Seu pai sempre buscou apoio da Secretaria de Esportes de Imperatriz (MA), mas nunca recebeu uma resposta positiva. Pela ausência do apoio durante sua trajetória no esporte, Rayssa não quis posar ao lado de políticos da região quando retornou à sua cidade.]

Mulheres de ouro 

As atletas brasileiras fizeram história em Tóquio. Dos 21 medalhistas, 9 são mulheres. E como se não bastassem as medalhas, todas elas trouxeram novos recordes para o Brasil em jogos olímpicos. As esportistas subiram 9 vezes no pódio, com 3 ouros, 4 pratas e 2 bronzes. Os homens conquistaram 12 medalhas – 4 ouros, 2 pratas e 6 bronzes.

Rayssa Leal ganhou a prata no Skate Street e se consagrou a mais nova brasileira a conquistar uma medalha olímpica, enquanto Carol Gattaz se tornou a medalhista brasileira mais velha. Rebeca Andrade é a primeira mulher a conquistar dois pódios em uma única edição das Olimpíadas e Mayra Aguiar entrou para a história como a primeira brasileira com três medalhas olímpicas em uma modalidade individual, o judô.

Das 9 medalhistas, 8 são beneficiadas pelo Bolsa Atleta, exceto Rayssa que não atingiu idade mínima de 14 anos para participar. É importante reforçar que, para um país que fechou o Ministério do Esporte, que não tem políticas de base e que depende de projetos sociais para incentivar o esporte, o Brasil fez história em Tóquio. 

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