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ENEM tem o menor número de inscritos desde 2005

Entenda os problemas por trás dos baixos números de participantes no exame.

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Foto: internet/reprodução

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi criado em 1998 com o objetivo de avaliar o desempenho dos estudantes ao fim da escolaridade básica. Porém, com os anos, ele passou a ter outra função e o resultado da prova passou a servir como forma de acesso ao Ensino Superior em universidades públicas e privadas brasileiras e até no exterior, como é o caso de Portugal e outros países.

No entanto, desde seu novo formato, implementado em 2009, os números de inscritos de 2021 são os menores: pouco mais de 3.1 milhões de inscritos. A situação foi agravada pela pandemia e também por algumas medidas do governo, como negar o pedido de isenção dos alunos que não compareceram à prova no último ano. 

Apesar da desigualdade entre candidatos egressos de escolas públicas e privadas nos resultados da avaliação, esse processo de ingresso nas universidades foi pensado de modo que fosse possível diminuir a barreira no acesso à Educação Superior de acordo com a nota alcançada. Uma vez que para conseguir uma vaga em uma universidade pública era necessário prestar os vestibulares próprios de cada uma, exigindo um gasto maior com inscrições, locomoção e estadia para realizar a prova. 

A redução dos custos para aqueles que desejam prestar o exame em 2021 foi dificultada, já que o edital exige que o participante que teve a gratuidade na edição anterior, e que não foi fazer a prova, justificasse a ausência para receber novamente a isenção da taxa de inscrição. Desse modo, o número de estudantes pretos e pardos diminuiu juntamente com o número de jovens de baixa renda formados realizando o exame. Um levantamento realizado pelo Semesp revelou uma queda de 77,4% no número de inscritos com renda familiar de até três salários mínimos.

“Acho que é reflexo fundamentalmente de duas questões: a primeira é a perda do vínculo com a educação e com os próprios estudos em função de um ensino remoto de baixíssima efetividade e com alcance limitado. E o segundo [motivo] é que é reflexo da necessidade de busca de renda por parte de muitos desses jovens”, apontou Olavo Nogueira Filho, diretor-executivo da organização Todos Pela Educação, em entrevista para a ANACEU.

Ensino remoto, evasão escolar e baixas nas inscrições 

Problemas com a conexão de internet, desmotivação e evasão escolar assolaram os últimos meses de aulas. Sabemos que a Educação pública brasileira é sucateada por si só, mas quando ela requer acesso à tecnologia, expõe a gravidade dos problemas sociais e da desigualdade no país. 

O principal exemplo são os casos de alunos que abandonaram a escola para ajudar na renda da família durante a pandemia, causando impacto direto nas inscrições para o Enem, uma vez que famílias mais pobres não conseguem enxergar na Educação uma forma rápida de melhora das condições financeiras, levando ao abandono dos estudos.

A desistência desses alunos faz com que as universidades sejam ocupadas majoritariamente por uma elite financeira do país, tendo em vista que pessoas negras e pobres têm sido números menores no exame em relação aos anos anteriores, dando cor e classe aos universitários. 

A maioria dos estudantes que se inscreveram na edição de 2020 do Enem era formada por pretos, pardos, amarelos e indígenas, 63,2% do total. Em 2021, esse número caiu para 56,4%.

“Esses dados apontam um desequilíbrio de oportunidades oferecidas aos estudantes de diferentes condições sociais que pretendiam realizar o exame, que acaba contribuindo para o aprofundamento da injustiça social e para o aumento da elitização no ensino superior”, explicou Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp, em nota.

Situação que vai ao encontro da fala do atual Ministro da Educação, Milton Ribeiro, dada no programa Sem Censura, da TV Brasil: 

“Então acho que o futuro são os institutos federais, como é na Alemanha. Na Alemanha são poucos os que fazem universidade, universidade na verdade deveria ser para poucos nesse sentido de ser útil à sociedade”, afirmou.

Ao contrário do que diz o ministro, as universidades têm papel fundamental na sociedade e são responsáveis por inúmeros benefícios à população. As universidades federais, inclusive, são responsáveis por diversas ações de combate ao corona vírus (Covid-19), como pesquisas de vacinas e medicamentos, além do atendimento aos pacientes na linha de frente, por meio dos hospitais universitários.

Os três últimos anos da avaliação

Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo Enem, vem apresentando problemas não vistos anteriormente. 

Em dois anos, o Inep já teve cinco presidentes diferentes. O troca-troca se concentrou nos primeiros cinco meses de 2019 e teve demissões por discordâncias políticas, uma vez que o presidente queria interferir nas questões da prova.

No meio de toda essa desorganização ficam os estudantes que dependem dos exames organizados pelo Inep para entrar no Ensino Superior e concluir o Ensino Médio.

Na edição de 2019, a primeira da atual gestão presidencial, a troca repentina de gráfica causou “inconsistências” na correção dos gabaritos das provas aplicadas, prejudicando quase 6 mil alunos. 

Já na edição do ano passado, houve problemas para escolher as datas da prova, depois que foi realizada uma enquete na qual os estudantes voltaram às cegas. Houve a segunda onda de Covid-19 no país na data determinada e consequentemente a desistência de muitos participantes. 

Para Andrea Ramal, doutora em educação pela PUC-Rio, o adiamento das provas de 2020 não causaria impactos negativos na educação, uma vez que a pandemia em si, desde o início, já interferiu bastante.

“Não havia clima e sentido para fazer essa prova. As aulas ainda não voltaram normalmente, como você vai colocar pessoas despreparadas para fazer uma prova tão importante?”, afirma Andrea.

Mas, apesar disso, a prova ocorreu e alguns alunos foram impedidos de fazê-la devido à superlotação das salas, e às medidas implementadas devido a pandemia. 

“Para nós, o ENEM e os demais programas de acesso à universidade, são importantes e não podem ser enfraquecidos, se utilizando dessa situação”, afirma a União Nacional dos Estudantes em nota de repúdio. 

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