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Afinal, o que comemoramos no 7 de Setembro?

A distorção dos ideais de nacionalismo e a apropriação de símbolos nacionais pela extrema direita.

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Quadro "Independência ou Morte", encomendado pela Família Real Brasileira, em 1888.
Fonte: Ministério das Relações Exteriores

Pelo segundo ano seguido, em razão da Pandemia de COVID-19, o Ministério da Defesa  anunciou a suspensão do tradicional desfile de 7 de Setembro, que comemora a Independência do Brasil. A celebração se resumirá ao hasteamento da bandeira nacional, no Palácio da Alvorada, com restrição de público. Governos estaduais e municipais também acataram a medida para prevenir aglomerações.

No entanto, as polêmicas em torno da data comemorativa não se resumem às tradicionais exibições nacionalistas. Em 2019, primeiro ano de seu governo, o Presidente Jair Bolsonaro aproveitou a data para exaltar o patriotismo e convidou a população a usar verde e amarelo nas ruas. Naquele momento, já havia um conflito sobre a apropriação das cores e da Bandeira Nacional, e muitos grupos contrários ao governo convocaram as pessoas a vestirem preto nesse dia.

Dois anos depois, a ameaça do presidente não é mais a dominação dos símbolos brasileiros, mas do Estado. O fantasma de um golpe militar parece rondar o país, deixando a independência ainda mais longe da democracia – já que as duas nem sempre estiveram relacionadas.

No dia 7 de setembro, celebramos a independência do Brasil, declarada há 199 anos pelo monarca Dom Pedro I, que levantou sua espada às margens do Rio Ipiranga e proferiu o famoso grito “independência ou morte!”. 

O quadro que representa a cena, “Independência ou morte!”, ilustrado por Pedro Américo, foi encomendado pela Família Real Brasileira 60 anos depois do ocorrido, para mostrar o poder da monarquia no jovem império. 

No entanto, existe um consenso entre historiadores de que a proclamação da independência foi muito diferente do que é visto na obra. A imagem de um grande grupo de pessoas a cavalo, com vestimentas elegantes demais para uma viagem longa, não condiz com as pequenas caravanas, que geralmente usavam mulas como meio de transporte.

As aparências por trás da celebração enganam.

Nacionalismo ou Patriotismo?

“Nacionalismo” e “Patriotismo” são a mesma coisa? Na verdade, não. Nacionalismo é a ideia de valorização da cultura nacional, que tem a intenção de gerar o sentimento de pertencimento em um povo. É possível identificar esse sentimento, por exemplo, em competições esportivas como a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas, quando as pessoas se juntam para torcer pelos atletas que representam o país.

Já o patriotismo se refere a um sentimento de amor e lealdade à pátria de uma perspectiva institucional, de devoção ao hino, à bandeira e outros símbolos nacionais, e se utiliza de valores como democracia e liberdade para validar seu discurso.

A linha que separa as duas coisas é cada vez mais tênue, e muitas vezes as palavras são usadas como sinônimos, principalmente por grupos da direita política, que afirmam defender os “interesses nacionais”. Dessa forma, esses grupos podem se referir a qualquer pessoa que discorde do posicionamento que defendem como “inimigo da pátria”.

Eventos como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil já vinham sinalizando a recuperação de força desses ideais. Nos casos citados, as falas de amor e lealdade à pátria vêm acompanhadas de xenofobia, antissemitismo e supremacia branca.

Quando é que o amor à pátria faz mal?

O maior exemplo de ultranacionalismo da história é a Alemanha Nazista. Mesmo anos após o fim do regime, os alemães ainda tinham receio de fazer qualquer manifestação nacionalista, temendo que o ato fosse confundido como apologia ao nazismo.

No Brasil, um fator que freia o crescimento do patriotismo é o passado mal resolvido com a Ditadura Militar (1964-1985). Grande parte dos brasileiros ainda associa diretamente frases como “Brasil acima de tudo” com esse período tão violento da história do país. 

Sobretudo nos últimos anos, a tentativa de recuperação dos símbolos nacionais veio acompanhada por ideais autoritários, inclusive o slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o” chegou a ser revivido em 2018, e rapidamente foi tirado do ar por causa das inúmeras críticas. 

Décadas depois do fim do nazismo e da criminalização desta ideologia, tanto na Alemanha quanto no Brasil, o governo do presidente Jair Messias Bolsonaro parece flertar com as ideias de extrema direita nazista. 

Em julho deste ano, o presidente e outros políticos apoiadores de seu governo se encontraram com a deputada alemã Beatrix von Storch, do Alternativa para a Alemanha (AfD), investigada por propagar ideias neonazistas e xenofóbicas. O partido ultradireitista também está envolvido em pautas antivacina e islamofóbicas.

Além disso, outros membros de sua gestão já tiveram gestos e falas associados ao governo de Hitler. Em 2020, o secretário especial de cultura do governo, Roberto Alvim foi exonerado do cargo após divulgar um vídeo em que copiava o discurso de Joseph Goebbles, Ministro da Propaganda da Alemanha nazista.

Ao ser questionado sobre o ocorrido, Alvim afirmou que a frase foi apenas uma coincidência retórica e que “todo o discurso foi baseado num ideal nacionalista para a Arte brasileira (…) Mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo é o que queremos ver na Arte nacional”, disse.

Embora o discurso desses grupos nacionalistas se aproprie muito de termos como “democracia” e “liberdade”, manifestações contra as instituições democráticas são cada vez mais frequentes. Nos atos em apoio ao atual governo, grande parte dos manifestantes grita e leva cartazes pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e até mesmo uma intervenção militar, o que é inconstitucional.

O Presidente já se manifestou sobre a onda de protestos organizada para o Dia da Independência e afirmou que não é preciso temer o 7 de Setembro, mas seguiu fazendo ameaças a ministros do STF e insinuando a possibilidade de uma atitude antidemocrática “se for necessário”.

Afinal, no cenário atual, que independência comemoramos? 

Quais são os ideais nacionais com os quais nos identificamos?

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