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O desafio da volta às aulas durante a pandemia

Depois de quase 500 dias sem aulas presenciais os alunos da rede pública de ensino podem voltar às salas de aula.

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Imagem mostra os portões de uma escola fechados, com um cartaz afixado, informando a suspensão das aulas.
Foto: Adriano Machado

O Brasil,  foi o país que ficou por mais tempo com as escolas fechadas por conta da pandemia, e também foi o segundo país a ter mais mortes por COVID-19. Por isso, a volta às aulas se torna um assunto tão delicado e uma situação tão urgente. 

Além de tentar recuperar o tempo perdido na aprendizagem e convencer os alunos que desistiram de estudar a voltar às escolas, os gestores têm como desafio evitar um aumento de casos e mortes em meio à ameaça da variante delta, cepa mais transmissível que já circula no país.

Até o início do segundo semestre, apenas 11 dos 26 estados optaram por aderir o retorno presencial das aulas. Porém, com o avanço da vacinação e com a queda da média móvel de mortos pela COVID-19, todos os 26 decidiram retornar agora, no mês de setembro. 

Mas é seguro voltar às salas de aulas?

É inquestionável o quanto o funcionamento das escolas é essencial. Mas exatamente por isso que o retorno dos alunos não pode ser feito de qualquer maneira. É necessário levar em conta os riscos aos profissionais e aos estudantes, para que a sala de aula não seja uma agravante dos casos de coronavírus. 

Segundo uma revisão de evidências feita pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em dezembro de 2020, as escolas não são ambientes de super contágio de COVID-19. 

A pesquisa foi baseada em experiências de outros países como Estados Unidos, Itália e Coreia do Sul, que usaram medidas como aferição de temperatura e divisórias de acrílico entre as carteiras, além do distanciamento e medidas sanitárias. Segundo o instituto, o único caso preocupante foi o de Israel, que afrouxou a obrigatoriedade das máscaras devido a uma onda de calor, gerando assim, um surto na cidade de Jerusalém.   

Já no Brasil, um estudo do Instituto Pólis, indica que houve um aumento das mortes entre trabalhadores da área, na cidade de São Paulo, em 2021, acompanhando a retomada das aulas. Pesquisadores apontam que um dos problemas pode ser a reabertura desorganizada sem o cumprimento dos protocolos, o que pode colocar em risco os alunos e os profissionais da educação.

O Ministério da Educação forneceu um guia com os protocolos para o retorno das aulas, entre os quais se destacam lavar frequentemente as mãos até a altura dos punhos, ou higienizar com álcool em gel 70%; respeitar o distanciamento de pelo menos um metro; não compartilhar objetos de uso pessoal; e priorizar, sempre que possível, refeições em prato feito em vez do self-service. 

Mesmo protocolo, realidades diferentes

O processo de retorno das aulas presenciais tem, por outro lado, escancarado as desigualdades entre os ensinos público e privado. Por falta de capacidade estrutural, as escolas públicas não conseguirão receber todos os estudantes de uma única vez, ao contrário do que acontece nas escolas privadas. 

Das escolas de ensino fundamental da rede pública, 20% não contam com banheiro dentro do prédio e 40% não têm acesso à rede pública de abastecimento de água. Outro problema que gera preocupação são as salas de aula que não tem espaço ideal para que haja distanciamento

Segundo o Censo Escolar de 2018, há, em média, 40 estudantes por turma no ensino médio, nas escolas públicas. Uma das soluções para a falta de espaço seriam aulas ao ar livre, como quadras e parques. No entanto, nem todas as instituições de ensino conseguiriam adotar a estratégia, uma vez que esses recursos são predominantes em escolas privadas e federais. 

“Dentro da favela, várias pessoas não usam máscaras. Elas só entram na escola de máscara pela obrigatoriedade, mas quando saem já tiram no automático, tanto pais quanto alunos. Mesmo com rodízio as salas permanecem cheias e o distanciamento é quase zero.  As crianças brincam de se agarrar, de correr… É coisa pra inglês ver“, disse Be, 29 anos, agente de apoio à educação especial (AAEE) em uma escola municipal do Rio de Janeiro.

Mas e o ensino híbrido?

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) 90,1% colégios públicos ficaram sem atividades presenciais ao longo da pandemia em 2020. Nesse período, o ensino foi remoto, sobretudo por meio de materiais impressos.

O levantamento feito pelo instituto analisou as ações implementadas em meio à pandemia por escolas públicas e privadas e concluiu que a maior dificuldade ao acesso à internet foi identificada na rede municipal, onde apenas 2% dos estudantes tiveram acesso gratuito ou subsidiado à internet em casa.

Por isso, um dos problemas que cerca a educação brasileira se agravou, a evasão escolar. Um levantamento realizado pelo IBGE, em outubro do ano passado, revelou que cerca de 1,38 milhão de alunos, de 6 a 17 anos, haviam deixado de frequentar as aulas presenciais ou a distância. 

Esses números correspondem a 3,8% dos estudantes matriculados, um índice de evasão mais alto do que a média registrada em 2019, que foi de 2%. Além da situação da pandemia, também entram nos motivos a dificuldade de acompanhar as aulas remotas, bem como a necessidade de ajudar a família a complementar a renda doméstica.

A quarentena também trouxe dificuldades emocionais causadas pela solidão dos alunos, visto que passar muito tempo longe de outras pessoas é difícil. A saudade dos amigos é também acompanhada pelo medo e preocupação.

Com o distanciamento social, o tempo que os alunos passavam na escola agora é substituído por um período de quarentena contínuo. Desse modo, é comum surgirem pensamentos negativos sobre o futuro. Isso faz com que muitos desses alunos percam aos poucos seus contatos, e se isolem, se sentindo solitários. 

Com o retorno das aulas os impactos na saúde mental dos alunos já irão diminuir. Mas é importante que haja colaboração das escolas, mais importante do que recuperar o conteúdo perdido, é se preocupar com a saúde mental das crianças e dos adolescentes.

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