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Como o racismo afeta a saúde mental de pessoas negras?

Preconceito institucionalizado e violência aumentam o risco de problemas físicos e mentais.

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A foto, em preto e branco, mostra um homem negro com o rosto coberto pelas mãos
Foto: Nappy, banco de imagens formado exclusivamente por pessoas negras

Os mais de 300 anos de escravidão no Brasil deixaram marcas que não podem ser apagadas, e enraizaram costumes racistas que ainda perduram nos dias de hoje. Ainda são comuns relatos de episódios de racismo e humilhação vivenciados por pessoas negras, principalmente no ambiente escolar e no trabalho.

Receber um tratamento diferente nos estabelecimentos comerciais, e também nos de saúde, estar mais exposto à violência policial e vivenciar frustrações e constrangimentos em decorrência do pertencimento racial. Tudo isso pode desencadear sentimentos de menor valor e inadequação, com um custo emocional imediato ou posterior à pessoa que sofre racismo. 

De acordo com Roberta Federico, integrante da Associação de Psicólogos Pretos dos EUA, o racismo afeta o bem-estar psicológico de múltiplas formas, entre elas a baixa autoestima por ausência de representação na mídia, o que gera insegurança. O racismo também pode causar distorção da autoimagem devido à atribuição da beleza às características brancas, e à internalização de que “embranquecer” é o único meio para ter acesso a respeito e dignidade. Além disso, ele causa retraimento social e traumas devido a casos de racismo sofridos anteriormente. Todos esses sintomas podem se agravar e gerar outros distúrbios, como a depressão. 

Pela classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que considera negros e pardos, 54% da população brasileira é negra. Mesmo sendo maioria da população, apenas 18% dos médicos são negros. Ainda falando de atendimento à saúde, a grade dos cursos de psicologia não contemplam disciplinas que abordam a saúde mental da população negra, bem como não contempla intelectuais negros e negras em suas bibliografias, causando impacto direto no tratamento. 

Um exemplo é o depoimento de uma paciente, que não quis se identificar, em entrevista para a VEJA:

“Faço tratamento com um médico que é branco. Sei que minha baixa autoestima, ansiedade e depressão são, em parte, explicados pela cor da minha pele e tudo isso dificulta muito minha vida. E quando falo sobre isso ele minimiza minha dor e minha vivência”, afirma.

No caso específico das mulheres negras, além do racismo, há o machismo. A trajetória das mulheres negras brasileiras é permeada pela solidão, causada por problemas complexos, como a falta de representação, a extrema sexualização e a desvalorização social.

Práticas que ocorrem desde a colonização, a sexualização e o estupro de mulheres negras e indígenas se estende aos dias atuais. Um exemplo é a fala do Prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, à proprietária de uma das casas populares das quais fazia a entrega: “Vai trepar muito aqui nesse quartinho. Vai trazer muito namorado pra cá”, disse. 

O caso foi abordado em um seminário internacional pelas assistentes sociais Maria Santana dos Santos Pinheiro Teixeira e Josiane Mendes de Queiroz.

“Compreendemos que a objetificação do corpo e sexualidade da mulher negra está atrelada a concepções racistas que se estruturam como algo natural que são reproduzidos”.

Para elas, “nascer e se assumir negra é resistência”. 

De acordo com o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, a história social dos negros no Brasil reafirma que o preconceito racial é naturalizado desde a época da colonização. Nos estudos de psicologia para os casos de racismo e saúde mental, a intolerância e preconceito em relação ao negro é visto como condição estrutural.

Por isso, deve ser resolvido como uma questão de saúde pública. Toda a sociedade precisa reconhecer que racismo existe, se informar, conversar a respeito e buscar soluções, começando pelo acesso aos serviços e à informação, tendo em vista que 75% da população brasileira mais pobre é composta por negros, quando a renda familiar per capita de famílias brancas, em geral, é mais de 200% maior do que a renda de famílias negras. 

Além disso, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil e a expectativa de vida das pessoas negras é seis anos menor do que a de pessoas brancas. Mas, até qualquer mudança substancial acontecer, surgem iniciativas alternativas espalhadas pelo país. Alguns exemplos são o Instituto Sankofa de Psicologia, que oferece atendimento clínico e cursos no campo da psicologia africana no Rio de Janeiro, e o coletivo Negrex, formado por médicos e estudantes de medicina negros, criado para acolher e engajar pessoas em situações de racismo e vulnerabilidade. 

O que é racismo?

Por definição, o racismo é o preconceito, discriminação ou antagonismo por parte de um indivíduo, comunidade ou instituição contra uma pessoa ou pessoas pelo fato de pertencer a um determinado grupo racial ou étnico. Crime previsto na Lei n. 7.716/1989, inafiançável e não prescreve, ou seja, quem cometeu o ato racista pode ser condenado mesmo anos depois do crime.

Embora a teoria seja esta, a prática permanece bem diferente. Até 2017, apenas 244 processos de injúria racial chegaram ao final no estado Rio de Janeiro. Em 2018, dos 222 processos em tramitação no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia (TJ-BA) pelo crime de racismo, apenas sete foram julgados.

Enquanto isso, no Distrito Federal, os casos de injúria racial em 2019 passado chegaram a 453, índice 4,6% maior do que o somado no ano anterior. Já no esporte, casos de injúria racial no futebol aumentaram 235% entre 2014 e 2019.

Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) muitos dos processos não chegam ao fim pela ineficácia do sistema judiciário, juntamente com dificuldade em comprovar os crimes de ódio, uma vez que são caracterizados como microagressões, ou seja,  formas sutis de insultos verbais, não verbais e visuais, direcionadas a indivíduos, frequentemente feitas automaticamente ou inconscientemente pelos agressores. As microagressões expressam uma forma evoluída do racismo, visto que formas mais agressivas e sistêmicas não são mais socialmente aceitáveis como no passado.

Precisa de ajuda?

O sofrimento mental não deve ser motivo de vergonha e existem canais de apoio psicológico em que você pode procurar ajuda. O CVV – Centro de Valorização da Vida, por exemplo, é uma ONG que presta serviços gratuitos de apoio emocional por telefone. Basta discar 188, ou acessar o site https://www.cvv.org.br/.

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