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Novelas imperiais e a romantização da escravidão no Brasil

A história contada da perspectiva do dominador que invisibiliza os movimentos de resistência.

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Personagens centrais da novela Nos tempos do Imperador
Personagens centrais da trama das 18h da Rede Globo. Da esquerda para a direita, Pilar, Samuel, Luisa Condessa de Barral, o Imperador Dom Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina. Reprodução: Revista Quem

Nos Tempos do Imperador é uma das novelas na atual programação da Rede Globo, exibida às 18h. A narrativa, que se passa pouco mais de 30 anos após a proclamação da Independência, acompanha a família Real Brasileira e personagens históricos como a primeira médica do Brasil, representada pela personagem Pilar. No entanto, o folhetim tem sido criticado por polêmicas envolvendo racismo reverso e a exaltação da família real durante o período colonial escravocrata.

O capítulo que foi ao ar no dia 21 de agosto de 2021 mostrou uma cena  em que Samuel, um escravo liberto, conversa com a namorada, a médica branca Pilar. Ele fala sobre a moça não ter sido aceita na Pequena África, uma comunidade formada por escravos libertos no Rio de Janeiro, por ser branca. No diálogo, o rapaz questiona: “Como queremos ter os mesmos direitos, se fazemos com os brancos as mesmas coisas que eles fazem com os negros?”, o que foi apontado pelos telespectadores como uma insinuação de racismo reverso.

De acordo com o professor de História da Universidade Federal de Viçosa, Jonas Queiroz, qualquer obra que tente retratar um período passado é escrita a partir de uma visão do presente. Ele vê de maneira positiva as tentativas de abordar tais temas em obras destinadas a um público geral.

“Em nenhum momento se discutiu tanto a questão do racismo como atualmente, e isso é muito positivo. A sociedade precisa discutir isso, senão a gente não supera nunca. Então por isso, há um ganho, trazer o período da escravidão, colocar na sociedade atual, pedir pra que as pessoas participem da construção dessa obra, deem seu ponto de vista e levem isso para  o público, nós estamos fomentando o debate”, comenta.

A cena apresenta ainda outras incoerências com o período histórico que retrata. Queiroz destaca que uma jovem de elite como Pilar, provavelmente passaria a maior parte do tempo em casa e jamais sairia desacompanhada.

“Uma mulher das camadas mais privilegiadas da sociedade não andava sozinha na rua até meados do século XX, que dirá conversar com um estranho na rua, isso era inconcebível, que dirá conversar com um ex-escravo, certamente isso é tudo muito irreal”, explica.

O professor comenta, ainda, que as pessoas negras eram vistas com total desconfiança nesse período. Uma pessoa escravizada liberta não andaria pelas ruas sem ser abordada pela polícia para mostrar sua documentação, como acontece em alguns momentos da trama. Ele explica que a sociedade não era nada permissiva com os ex-escravos, e que eles eram vigiados o tempo todo, a ponto de qualquer pessoa livre poder prender um negro que estivesse andando na rua e levá-lo à polícia se suspeitasse que fosse um escravo fugido.

Para além do racismo

Além da polêmica racista, a trama tem a premissa de exaltar Dom Pedro II. O monarca é descrito pela emissora como:  “Idealista, favorável à abolição, tem um projeto para o Brasil que passa pelo investimento na educação de qualidade, incentivo à cultura, crença na ciência e proteção do meio-ambiente. É considerado o melhor governante que o Brasil já teve e é, até os dias de hoje, a figura histórica mais admirada do País”. Sobre isso, o professor Jonas Queiroz afirma que o Imperador sofria muita pressão de abolicionistas estrangeiros e que se preocupava com a imagem que tinha na Europa.

Assim como várias outras obras que retrataram o período escravocrata, o folhetim foca nos conflitos familiares da corte brasileira, relações de ciúmes e traições. Os barões abolicionistas são retratados como benevolentes, como em uma cena em que Samuel elogia o Barão de Mauá ao lhe pedir uma oportunidade de emprego, e consegue o trabalho.  

No entanto, a abordagem distorcida de temas sensíveis, a valorização das figuras de poder e o abrandamento de violências e de conflitos já não é mais bem aceita pelo público e pela crítica. Após a repercussão negativa, mesmo com as gravações encerradas, o escritor Nei Lopes, que é pesquisador na área de cultura afro-brasileira, foi adicionado à equipe. Com a consultoria do especialista, algumas cenas foram cortadas, e outras, revisadas e regravadas.

Queiroz vê a chegada de um consultor especialista no assunto à equipe de Nos Tempos do Imperador e a regravação de algumas cenas como algo bastante positivo. Mas é necessário que esse tipo de trabalho de pesquisa vá além da apuração histórica e se estenda também às novelas de temática contemporânea para criar narrativas que acompanhem as mudanças da sociedade.

Qual o problema dessa abordagem da história?

A mestranda em Comunicação e Temporalidades, Júlia Militão, que estuda novelas como práticas comunicacionais, comenta que esse predomínio branco é um problema do audiovisual como um todo. Para ela, para produzir obras que não romantizem as violências do período escravocrata, é necessário fugir do óbvio e abordar a história de outro ponto de vista que não só o do branco colonizador. 

“A gente tem que contar que a história não aconteceu só dessa maneira, que tiveram pessoas que resistiram. Se você vai contar uma história sobre o tempo da escravidão, é importante você contar a partir da centralidade das pessoas que foram escravizadas” afirma.

O problema dessas narrativas é que elas são majoritariamente escritas por pessoas brancas e mantém a história contada da perspectiva dos grupos dominantes. Isso atenua a relação hierárquica entre senhores e escravos, aproximando-a de uma relação amistosa e ignorando todas as violências do sistema escravocrata.

Para Militão, as novelas devem ir além de um simples entretenimento, fazendo o papel de trazer para o cotidiano dos brasileiros assuntos importantes. Retratar períodos históricos faz com que o telespectador conheça melhor a história do país e relacione fatos de séculos atrás com situações do Brasil atual, como a desigualdade social e o racismo. 

“Entender as violências sofridas no passado do lugar de quem as sofreu, nos dá uma nova interpretação da história, que explica muito melhor a dinâmica social atual. Manter o viés dos grupos dominantes é vantajoso apenas àqueles que têm interesse em manter essa estrutura da sociedade – a do racismo”, destaca. 

Como mudar essa perspectiva?

Com a quantidade de informação disponível hoje, é possível produzir obras que explorem melhor os contextos do passado. Militão destaca a importância dessas produções, mas com a oportunidade de mostrar novas perspectivas e contar outras histórias:

“Eu vejo nas telenovelas de época, é que elas são uma possibilidade de olhar pra esse passado e poder construir uma narrativa sobre esse tempo que é diferente da história que a gente costuma ouvir”.

A carência de representação de pessoas negras não se restringe ao horário das 18 horas ou às produções de época. No horário nobre da Rede Globo, às 21 horas, por exemplo, apenas 3 novelas entre os anos de 2000 e 2018 tiveram protagonistas negras. 

As pessoas negras ainda são representadas apenas nos coadjuvantes que, de alguma forma, prestam serviços aos protagonistas brancos, como motoristas e faxineiras.

A presença de personagens negros nos folhetins tem aumentado, mas a manutenção de papeis sociais e estereótipos ainda incomoda: “As novelas até hoje tendem a colocar os negros em papeis subalternos. O negro é sempre o favelado, o traficante, a empregada doméstica… Tem essa inserção, mas qual é o lugar que eles têm ocupado?”, complementa a mestranda.

Sobre isso, Queiroz também comenta:

 “Sei de situações em que novelas brasileiras foram rejeitadas em outros países, na África, principalmente, pelos papeis que eram atribuídos aos negros. Eram sempre serviçais, eram sempre colocados nas novelas em posições subalternas. Então você colocar, mesmo que inventando, uma personagem que não tenha essa posição, isso é muito bom.”

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