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Clássicos de ontem, questionamentos de hoje

A importância dos textos, que por mais que sejam problemáticos, apresentam um retrato fundamental de como nossa sociedade foi e como ela será.

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Imagem do filme "Orgulho e Preconceito". Reprodução: Internet

Durante grande parte da minha adolescência, a biblioteca pública da minha cidade foi uma dos lugares que eu mais frequentei. A infinidade de mundos para serem descobertos bem ali, naquelas prateleiras, ao alcance das minhas mãos. Leitora ávida que sempre fui, buscava todos os dias uma novidade de alguma prateleira diferente. Literatura russa, francesa, alemã, brasileira, esoterismo, poesia. Maravilhoso como dentro daquelas paredes havia um tesouro literário. 

Tesouro que nem todo mundo tem acesso. Segundo dados de uma pesquisa feita em 2015 pelo SNBP (Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas), naquele ano existiam apenas 6.057 Bibliotecas Públicas em todo país. Ou seja, no Brasil, existe uma biblioteca pública para cada 35 mil habitantes. E os problemas e obstáculos enfrentados pelos leitores brasileiros não param por aí. 

No nosso país, os livros nunca foram produtos considerados baratos e de acesso possível para todas as classes sociais. Porém, eles estão se tornando artigos de luxo e o governo não ajuda. Se a nova Reforma Tributária proposta pelo Governo Federal for aprovada pelo Congresso, um novo tributo de 12% passará a incidir sobre eles, o que pode causar um aumento de cerca de 20% no valor de venda dos livros. 

Eu sempre gostei de ler, mas como o acesso aos livros que estão nas estantes das livrarias sempre foi escasso na minha casa, a biblioteca pública era minha alternativa. Mas e quem não tem acesso a uma biblioteca pública? Bom, existe uma coisa chamada Domínio Público. Mas o que essa coisa faz? Quando uma obra entra em domínio público quer dizer que não existem mais direitos autorais sob a mesma. Logo, ela pode ser compartilhada, revisada, reproduzida e vendida por quem quiser fazer isso.

No Brasil, uma obra entra em domínio público setenta anos após o ano seguinte à morte do autor. Ou seja, se um autor morreu no dia 13 de outubro de 2019, então, em setenta anos, contados a partir do dia 1º de janeiro de 2020, todas as obras desse autor entrarão em domínio público. Obras de Machado de Assis, José de Alencar e outros grandes autores estão aí, de graça, disponibilizadas na internet para quem quiser. 

Inclusive clássicos da literatura internacional escritos desde antes do século XX também são encontrados lá. E aí vamos entrar em mais um “obstáculo literário”: a realidade preconceituosa de muitos desses livros de séculos passados. Mas não seria anacrônico chamar esses livros de preconceituosos? Quer dizer, certamente não deveríamos atribuir características de nossa época ao século XIX, mas por causa disso devemos fingir que elas não existem? 

Apontar os erros do passado não nos torna anacrônicos. É um ato necessário para que possamos mostrar que esses comportamentos não são mais aceitos na sociedade, como o racismo presente nas histórias de Monteiro Lobato, ao usar termos como “macaca de carvão” ou defender o fim da “raça”. Tolstoi, o escritor russo, trata todas as suas personagens femininas de forma completamente machista e até mesmo demoniza os indivíduos do gênero feminino. A Bertoleza, de Aluísio Azevedo, vem com os estereótipos da “raça” e da cor, sendo construída para ser uma personagem que se submete às ordens de um homem branco, sem sequer perceber tal fato.

Além da discussão sobre anacronismo, existe também, em curso, outra sobre a revisão de clássicos, com a adaptação ou até exclusão de trechos racistas, misóginos e etc. Porém, o revisar dessas obras vem com um apagamento de um passado com erros que não podem ser esquecidos. Pois quando nos esquecemos dos erros passados, a tendência é seguir repetindo-os. 

Mas existem também os que foram divisores de águas. Muitas mulheres romancistas ganharam notoriedade com seus escritos. Caso de Virginia Woolf, Agatha Christie, Jane Austen e Júlia Lopes de Almeida — essa última participou da criação da Academia Brasileira de Letras, mas não pode assumir uma cadeira por ser mulher. Óbvio que as obras de tais autoras não estão excluídas de carregarem o preconceito da época, mas muitas dessas foram revolucionárias ao conseguirem escrever seus livros num mundo onde só os homens poderiam alcançar reconhecimento.

Sobre a literatura, sou completamente adepta e fruto da teoria de que um livro puxa o outro. Mas como assim um livro puxa o outro? Eu sempre gostei de ler, mas o primeiro livro com mais de 300 páginas que li foi Crepúsculo. Então, sim, agradeço meu apreço pela leitura à minha família, mas também à Stephenie Meyer. Em Crepúsculo, a protagonista, Bella, também é uma leitora voraz e uma grande amante dos clássicos. 

Logo depois, adquiri para minha pequena coleção, que se iniciava, O Morro dos Ventos Uivantes. Infelizmente, Emilly Brönte não me prendeu como fez com a jovem Bella Swan. A Mariana de 13 anos de idade ficou rapidamente de saco cheio com a história de amor desses personagens que nem me lembro do nome. Sim, o livro está na minha estante há 8 anos sem ser terminado. E tudo bem. 

Parafraseando Italo Calvino, os clássicos são assim chamados por serem considerados leitura de formação, ou seja, com poder de gerar experiências e modelos. Modelos e experiências que vão se fixando não só no imaginário do leitor, mas também no imaginário popular. 

Mesmo quando nos esquecemos do texto, ao reler é como se um momento cartunesco acontecesse e a lâmpada da memória e das ideias se acendesse no nosso cérebro, ativando memórias e o inconsciente criado pela experiência da leitura anterior daquele livro. Eu não terminei de ler O Morro dos Ventos Uivantes, mas Orgulho e Preconceito é o livro mais surrado de toda minha coleção. Emilly Brönte não me segurou, mas Jane Austen me prendeu como uma carcereira numa prisão literária. Não de um jeito ruim. 

A primeira vez que li Orgulho e Preconceito tinha 13 anos e, realmente, toda vez que releio é uma nova aventura, uma nova descoberta. O livro não mudou. Quem mudou fui eu, minhas vivências, minha perspectiva de vida e tudo isso mudou meu olhar sobre o livro. E não falo só de Orgulho e Preconceito. O Cortiço, O Jardim Secreto, A Moreninha, Anna Karenina e mais vários outros clássicos que já li, vou ler e, certamente, irei reler. Eles nunca vão mudar, mas eu sim, e a visão do leitor é uma das coisas que tornam um livro único em toda sua magia literária.

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