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Crise climática: impactos na saúde e na economia

Mortes, queimadas e até insegurança alimentar podem ser efeitos das mudanças climáticas.

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Neve em Urupema
Foto: Marleno Muniz / Prefeitura de Urupema / MetSul

As temperaturas extremas, tanto positivas quanto negativas, causaram grandes impactos recentemente. Enquanto o hemisfério norte chegava aos 49º C, registrando mortes pelo calor intenso, aqui no sul, o frio congelante também fez vítimas fatais. 

Os impactos não são apenas nas temperaturas, os incêndios que aconteceram nos Estados Unidos, no Canadá e na Sibéria, juntamente com as inundações na Alemanha e na China e a desertificação do semiárido brasileiro, estão diretamente relacionados ao aquecimento global e às mudanças climáticas. 

Embora não seja a primeira vez que as temperaturas superam as médias esperadas, o que chama a atenção dos cientistas é a sincronização desses eventos extremos nos dois hemisférios. O climatologista Erich Fischer, da Universidade de Zurich, na Suíça, um dos autores do relatório do clima divulgado pelo painel de cientistas da ONU, afirma que está tudo atrelado ao consumo de combustíveis fósseis que aquece a temperatura do planeta, provocando esses desequilíbrios. 

“Os impactos da mudança do clima apontam para inúmeras mudanças tanto no sistema humano, na questão de saúde, como também para os ecossistemas e meios de subsistência, como aqueles que dependem do mar, da pesca e da agricultura. Todos os setores da sociedade e em diferentes partes do mundo serão afetados”

afirma Thelma Krug, pesquisadora sênior do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Segundo Krug, com a divulgação do relatório, fica indiscutível a influência humana na mudança do clima. “É inclusive essa influência que está tornando esses eventos climáticos extremos mais frequentes, intensos e duradouros, como as ondas de calor, a seca, e forte precipitação.”

A pandemia fez com que duas importantes cúpulas sobre o meio ambiente fossem adiadas para 2021: a cúpula do clima que aconteceria em Glasgow (Reino Unido) e a reunião sobre biodiversidade de Kunming (China). Ambas serão decisivas para a década, pois será onde os chefes de Estado e presidentes apresentarão as metas de redução dos gases poluentes até 2030. 

O Acordo de Paris, firmado entre 195 países, em 2015, estabeleceu que, para evitar os efeitos mais desastrosos da mudança climática, os países deveriam reduzir suas emissões de tal forma que a partir de 2050 elas desapareceriam. O objetivo geral é que o aumento da temperatura, que já está em 1,2º grau, não ultrapasse 2º graus. E, na medida do possível, que não supere 1,5º grau.

O problema é que os planos de redução dos países atuais levarão a um aumento de mais de 3º graus. E por isso que alguns Estados como os que compõem a União Europeia, o Reino Unido e os Estados Unidos prometeram números de emissões ainda menores. 

Vítimas fatais e os impactos na saúde

O Canadá, país caracterizado pelas temperaturas baixas, bateu o recorde de temperatura mais quente do ano até então, quando atingiu a marca dos 49ºC. Cerca de 500 mortes estão associadas ao fenômeno, e segundo autoridades locais, a maioria eram pessoas idosas ou que tinham problemas de saúde prévios.

Medidas como instalação de centros de hidratação, que distribuem água e comida, juntamente com a abertura de ginásios e bibliotecas foram adotadas para que a população pudesse se refrescar. Algumas empresas também ofereceram suas sedes como local de refrigeração. 

Enquanto isso, no Brasil, várias cidades atingiram temperaturas negativas e em alguns lugares do Sul do país chegou a nevar. De acordo a agência de meteorologia MetSul essa é a maior anomalia negativa de frio no mundo, fora dos polos. Em nenhum outro lugar do planeta as temperaturas estão tão abaixo da média como na parte central da América do Sul. 

Esta é uma situação preocupante para o Brasil, país com mais de 220 mil moradores de rua, que além de serem invisibilizados e violentados precisam resistir às ondas de frio intenso. O Movimento Estadual das Pessoas em Situação de Rua (MEPSR-SP) registrou 16 mortes de moradores de rua, só em São Paulo.  Algumas das soluções encontradas foram transformar ginásios em abrigos temporários, e realizar doação de agasalhos e cobertores às pressas. Em São Paulo, a estilista Bibi Fragelli criou um saco de dormir impermeável e não inflamável para distribuir para pessoas que vivem nas ruas, em situação de vulnerabilidade. Desde abril, cerca de mil casulos foram distribuídos e outros 850 estão em produção.

Frio e seca

Outro problema que veio junto ao frio foi a seca, combo que prejudicou muitas plantações e pode impactar a economia. No Paraná, os produtores de milho e feijão devem colher menos da metade do esperado, enquanto em Minas Gerais o resultado negativo foi nos cafezais. Consequências que serão sentidas durante meses, uma vez que a alta dos preços dos alimentos influenciará na inflação, deixando mais difícil a recuperação econômica.

Os preços, que já estão nas alturas, devem continuar subindo. A inflação dos alimentos foi de 14% no ano passado. Neste ano, a expectativa era de que a alta dos preços diminuísse, mas o episódio frio de julho pode encarecer itens como milho, soja e café acima do esperado

As quedas nas produções de milho, cana e outros itens geram um efeito cascata na economia brasileira. O milho é usado nas rações de bovinos, suínos e aves. O etanol que abastece carros e motos é feito a partir da cana. Em casos como este, a lei mais básica da economia – oferta e demanda – se manifesta concretamente. Com as geadas matando plantações e reduzindo a oferta, a tendência é que os preços subam à medida que a demanda se mantenha estável.

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